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Crianças têm vida quase normal em creches de presídios e nas celas das mães

Publicação: 12/12/2011 07:44 Atualização:

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Com Vítor, de um ano e quatro meses , no colo, Luciana* quer refazer a vida depois que sair da prisão (Beto Novaes/EM/D.A Press)

Uma veste macacão cor-de-rosa; a outra, um lilás suave. Uma se chama Francis* e a irmã, Francineide*. São gêmeas, têm apenas um mês de vida, corpos frágeis e dividem o berço. Encarceradas na Penitenciária Feminina de Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba (PR), com a mãe Adriana*, de 33 — uma mulher sofrida, de traços indígenas, sem alguns dentes e soropositiva –, elas ainda não foram submetidas a exames para se saber se herdaram o vírus HIV. E pior. Não há data prevista para o teste. Na dúvida, Adriana não amamenta as filhas, alimentadas por mamadeiras incapazes de substituir o leite materno.

O drama de Adriana e das duas crianças, instaladas em uma cela da Galeria A, onde foi improvisado o berçário para abrigar filhos de até 6 meses de condenadas, abre a segunda parte da série de reportagens do Correio Braziliense/Estado de Minas sobre crianças que vivem em prisões. O berço das meninas está junto à parede, sob a única ventilação: duas pequenas janelas basculantes, com grossas grades. Mas o que não cabe ali é a angústia de Adriana, presa com o marido em 22 de fevereiro, por tráfico de drogas.

Na Galeria A, outras 12 mães e suas crianças dividem o espaço reduzido com mosquitos, grades e falta de estrutura. Sem berço, porque o único foi cedido às gêmeas, os pequenos são acomodados em banheiras de plástico sobre pesados cobertores. Ali, a administração do presídio não permite foto dos bebês, que têm a improvisação como companheira inseparável. Não há horário preestabelecido para o passeio ao ar livre. “É quando dá sol”, diz a diretora em exercício, Daniela Fidalgo de Barros, também grávida.

Enquanto a apertada Galeria A abriga os bebês de até seis meses, uma creche foi montada na Penitenciária Feminina de Piraquara para os maiores, de até seis anos. Em um terreno com árvores generosas, escorregadores, balanços e casinhas de plástico, o local é cercado por telas e a brisa corre sem empecilho. Ali, mães brincam, se alimentam e têm assistência médica para os filhos. Às 17h, elas são separadas dos pequenos para passar a noite nas celas.

A creche abriga atualmente 23 crianças de seis meses a 2 anos, entre elas o filho de 9 meses de Fernanda*, de 22, dona de olhos lindos e de duas condenações por roubo. Usuária de crack, ela tentou com o crime sustentar o vício, até ser presa. Deixou para trás outros dois filhos pequenos, o emprego de auxiliar de cozinha e a escola, onde cursava o 4º ano do ensino fundamental. Apostando que o filho não vai se lembrar do período que passou ali, Fernanda agradece a oportunidade de poder conviver com ele. “Aqui, tenho a chance de crescer com ele, de cuidar de alguém e de valorizar este momento que a vida me oferece.”

A companhia do filho de pouco mais de 1 ano também é considerada fundamental por Luciana*, de 21, que aposta na ressocialização. Usuária de drogas, ela passou a traficar para garantir o consumo. Em 2009, foi presa e fugiu durante uma rebelião. Mas, depois de engravidar de um companheiro estável, resolveu se apresentar e cumprir a pena de quatro anos e dois meses. Ela nem pensa em se separar de Vítor*. “O contato com ele me faz repensar os caminhos que escolhi na vida.”

* Nomes fictícios para preservar a identidade das entrevistadas e em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.


EU vi...
Penitenciária Feminina de Piraquara (PR)

"Em comparação com outras prisões do país, a creche do presídio feminino de Curitiba, onde vivem crianças de 6 meses a 6 anos, é uma delícia. O espaço é arborizado, com brinquedos coloridos de plástico. Consultoria médica, mesinhas de desenho e a absoluta ausência de grades dão um ar de normalidade à vida. Pedi para ver onde ficavam alojadas as crianças. A direção fez jogo duro e a cordialidade desapareceu. Sob a alegação de segurança, nossa visita foi vetada e as fotos, proibidas. Minha insistência terminou vencendo em parte o fraco argumento. Fui autorizada a visitar a famosa Galeria A, mas sem o repórter-fotográfico. Ao entrar, entendi tudo. Vi o inferno. Os bebês ficam com as mães em celas minúsculas, ao lado do banheiro. O maior conforto oferecido são banheiras de plásticos, onde ficam acomodados sob pesados cobertores. O banho de sol, indispensável ao crescimento saudável, só ‘quando dá’, segundo a diretora da unidade, também grávida de oito meses. Outra vez, me vi diante do desenho de uma tragédia à brasileira." (MCP)