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Nunca mais

Gernivaldo – nome fictício – é um detento cumprindo pena, em regime semi-aberto, na Penitenciária Agro Industrial São João, antiga PAI, no município de Itamaracá. Foi condenado, inicialmente, a 4 anos de prisão, porque furtou da vizinha uma galinha gorda, que serviu para matar sua fome, junto com seus seis filhos e a mulher. “Eu estava desempregado, os meninos e a mulher com fome. Não tive outra alternativa”, disse ele em depoimento na fase de inquérito policial. Sem poder contratar um advogado, Gernivaldo foi preso em flagrante delito e no mesmo dia foi conduzido ao Presídio Aníbal Bruno, onde permaneceu por longos 11 meses, aguardando a decisão da justiça, que finalmente saiu, reconhecendo a autoria e a materialidade delitiva. No Aníbal Bruno, ficou engaiolado numa cela com mais oito reclusos, seis deles traficantes de drogas e um estelionatário. “Finalmente saiu a sentença”, suspirou aliviado, quando soube que havia sido condenado, em regime semi-aberto, beneficiado com o fato de ser primário e de bons antecedentes criminais. A sentença condenatória transitou em julgado, isto é, tornou-se definitiva, pois não havia defensor para pelo menos apelar da decisão para o Tribunal.

Nos 11 meses em que esteve custodiado no “casarão do curado”, somente duas vezes recebeu a visita da mulher, quando soube que um dos filhos havia falecido e que o dono do barraco havia pedido de volta o imóvel, por falta de pagamento do aluguel. “Tirar um sarro” com a mulher, nem pensar. O chaveiro exigia 10 reais para dispor de parte do “come quieto”, somente acessível para os que podem pagar. Foi no Aníbal Bruno que deu as primeiras tragadas na erva maldita, oferecida por um dos companheiros de cela, antes desconhecida, mas que tanto serviu para apagar as mágoas e esquecer os percalços da vida. Seguindo rigorosamente o código de ética que por certo existe no ambiente prisional, principalmente “não cobiçar mulher alheia”, Gernivaldo fez boas amizades no Aníbal Bruno, quando foi transferido para a PAISJ, agora em regime semi-aberto, pelo menos isso, pois agora ele poderia sair, visitar a família e até trabalhar fora.