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Quanto vale a vida

ADEILDO NUNES

JUIZ DE EXECUÇÃO PENAL EM PERNAMBUCO

 

Ninguém duvida mais que o crime organizado no Brasil divide com o Estado legalizado a tarefa de governar este País. Se de um lado existe um estado democrático de direito, recriado com o esforço comum da própria sociedade que foi às ruas em busca de um regime democrático de governo, onde todos deveriam obedecer à lei, por outra via implementou-se na periferia das grandes cidades uma fábrica de criminosos, seguramente capazes de sucumbir nosso aparelhamento de segurança pública e os organismos estatais. Após a redemocratização do Pais, conquistada com muito esforço e com a morte de inocentes, o povo brasileiro que acreditou no voto direto para a escolha dos seus governantes e numa divisão igualitária de Poderes, vê-se desprotegido e entregue à própria sorte, encolhido e atônico pelos altos índices de violência que a cada dia crescem assustadoramente.  Esse mesmo Estado, 14 anos após promulgada a Constituição Federal de 1988, tornou-se completamente dominado e incapaz de conter o tráfico de armas e de drogas, dois males sociais que venceram nossos órgãos de segurança e conquistaram um poderio financeiro e armamentista jamais imaginado. Inertes, ante a audácia dos bandidos armados com fuzis AR-15, os cidadãos de bem estão presos em suas casas, rezando para que uma bala perdida não atinja a si nem a seus familiares, em pleno clarão do meio dia, como acontece com freqüência, enquanto todos, indistintamente, vivenciamos cotidianas mortes trágicas de jornalistas, promotores de justiça, policiais e gente inocente, sem se contar que os seqüestros, estupros e um aumento desenfreado na prática de crimes contra o patrimônio fazem parte da nossa convivência diária. Somos todos, por isso, escravos do crime e da omissão do Estado, a uma porque não cobramos políticas sociais que possam contribuir para uma diminuição da violência, e a duas porque insistimos em praticar modelos econômicos que só beneficiam as grandes potências. Há 240 anos atrás, Cesare Beccaria - em obra ainda hoje em consonância com os nossos dias -  “Dos Delitos e das Penas” , já assegurava que o crime jamais deixaria de existir – basta ver que Cristo foi torturado e morto, e Caim matou Abel – mas a criminalidade pode sim ser atenuada, desde que a todos seja garantido um trabalho honesto, moradia, saúde, educação e lazer, na proporção da necessidade de cada família. Ora, com 40 milhões de crianças absolutamente abandonadas, uma população praticamente desempregada e quando muito sobrevivendo na economia informal e sem perspectivas de augurar uma vida decente, é claro que a criminalidade assume o papel do Estado, como já ocorre nas grandes favelas cariocas, onde as escolas e postos de saúde são mantidos pelo tráfico de drogas. A vida dos brasileiros, infelizmente, vale muito pouco, eu diria, quase nada, mormente quando imaginamos que os desamparados sociais - que não nasceram criminosos, mas aprenderam a matar e a roubar no próprio meio social - descarregam suas crises existenciais e a falta de amor ao próximo tirando vidas alheias e realizando seqüestros, muitas vezes em busca de um aparelho celular que a mídia oferece em promoções atraentes, como se todos pudessem comprá-lo.

O atual quadro de melancolia, desrespeito à vida e de descontrole público que tanto compromete a paz social e a família, já se sabe, é fruto da ausência de políticas sociais voltadas para os mais carentes, para os que passam fome, para os desempregados e analfabetos, maioria absoluta da população brasileira.