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Detentas do Distrito Federal recorrem à criatividade para distrair os filho

FONTE : www.correiobraziliense.com.b

Alana Rizzo

Publicação: 11/12/2011 08:00 Atualização: 10/12/2011 21:30

A detenta Danielle Alves Silva, 23 anos, com sua filha de 6 meses (Breno Fortes/CB/D.A Press)
A detenta Danielle Alves Silva, 23 anos, com sua filha de 6 meses


O chocalho foi feito com uma caixinha de papelão e pedrinhas, que trilham o caminho de uma ala para outra. É assim que Tatiane da Silva, 32 anos, tenta distrair o filho João*, de cinco meses, quando a cólica insiste em atrapalhar o sono da criança. Ela aprendeu o “truque” na sua primeira passagem pela Penitenciária Feminina do Distrito Federal, conhecida como Colmeia, quando a filha, hoje com 12 anos, reclamava de dor, fome ou tédio. Tatiane é reincidente no crime e na gravidez atrás das grades.

Condenada pela segunda vez por tráfico de drogas, ela chegou grávida à prisão. Mãe de cinco filhos, logo que os primeiros enjoos começaram, pediu o exame. O bebê estava com um mês. Mãe e filho foram transferidos para a ala dos berçários. O espaço é tido como o “luxo” dentro do presídio. As mulheres têm direito a dormir em cama e não em blocos de concreto. Em vez de celas, são quartos. Também não sofrem com a superlotação. Mas o cenário não muda: continuam trancadas e sem ver além dos muros e das cercas da Colmeia, a 40km do Palácio do Planalto.

 Tatiane faz parte da faixa etária mais frequente entre as mulheres que tentam ganhar dinheiro com o tráfico: 62,6% têm entre 18 e 34 anos. Não escapou também de outra estatística, que faz crescer o número de detentas: prisão por venda de entorpecentes, em que se enquadram 61,8% das condenadas. Ou seja, quase três vezes mais que o número de homens — 23,08% da população carcerária masculina — sentenciados pelo mesmo crime no Brasil.

A segunda gravidez na prisão passou sem sustos. Ela sabia o que lhe aguardava. Iria sentir falta do apoio emocional de um parente e do marido, teria dificuldades para dormir quando a barriga crescesse e a comida do refeitório lhe daria náuseas nos primeiros meses. “Da primeira vez, enlouqueci. Não é fácil passar nove meses sozinha. É muito diferente ter um filho na rua e aqui”, recorda.

A mãe experiente também aponta diferenças no desenvolvimento das crianças. Os meninos aprisionados, segundo ela, têm um ritmo mais lento daqueles que nascem lá fora. É que, para a mãe, faltam espaço, alimentação adequada, remédio e até mesmo a convivência com outras crianças.

Na Colmeia, a direção estimula o aleitamento materno. Não só pelos benefícios tão conhecidos, mas pela falta de alimento adequado às crianças, como frutas e legumes. Quem não tem leite para amamentar até os seis meses, prazo em que os bebês terão que deixar a cadeia pelas regras do DF, depende de doações de leite em pó. Roupas, remédios e produtos de higiene pessoal também chegam pelas mãos de voluntários. Brinquedos não entram. Podem ser transformar em armas. Por isso, sobram chocalhos de pedras e saquinhos plásticos nas mãos das crianças.

“A gente bem que tenta inventar alguma coisa porque o grande sofrimento é não ter o que fazer. O tempo não passa. Nossos filhos ficam presos pagando pelo crime das mães”, lamenta Tatiane. Nem na única televisão do berçário as crianças têm prioridade: “Entre a novela e o desenho, a novela sempre ganha”, brinca a presidiária, em um dos poucos momentos em que sorri.

No colo
Tatiane sabe que, em um mês, terá que se separar do filho. Não quer sofrer como aconteceu da outra vez. Ela se sente mais preparada para voltar para a ala comum e ficar longe da criança, que vai morar com o pai e os irmãos. “Você tem que pensar na criança em primeiro lugar e isso aqui não é para eles”, diz. Para ela, o ideal era que a criança ficasse até um ano com a mãe. É que a Justiça no DF só autoriza a visita depois de a criança completar um ano.

A detenta ficou três anos sem ver a primeira filha que teve na prisão. A garota foi entregue a uma prima, que não levou a menina para visitar a mãe. Quando saiu da penitenciária, ela sofreu com a rejeição da garota, que não reconhecia a mãe. “Tive que passar três anos tentando mostrar para a minha filha todo o meu amor e que eu era mãe dela mesmo. Isso não é justo nem para a mãe nem para os filhos”, afirma. “Mas não quero filho meu vivendo na cadeia e abaixando a cabeça para agente penitenciário ou colocando o braço para trás toda vez que encontrar um policial civil.” Sua filha sabe que nasceu em uma prisão. Tatiane fez questão de contar e espera que isso sirva de lição, não de preconceito.

O medo da reação da filha ao saber que nasceu em uma prisão tira o sono de Daniele Alves da Silva, 23 anos. “Não sei se ela vai me perdoar, se vai aceitar. Pode pensar que eu roubei a infância dela porque ficou aqui comigo. Não gosto nem de pensar”, diz, com lágrimas nos olhos, a Miss Penitenciária 2009. Na verdade, o sono de Daniele anda bem turbulento. A separação da filha a inquieta ainda mais. A menina de seis meses vai passar o Natal e o ano-novo com a mãe e depois ficará com o pai. “O tempo todo somos só nós duas. Não sei como vai ser”, conta, apreensiva. Ser mãe era um sonho antigo da detenta. Ela só não imaginava que seria nessas condições. Presa em 2007 por assalto à mão armada, Daniele deve terminar a pena em dezembro do próximo ano. “Só quero sair daqui, poder trabalhar e criar minha filha em um ambiente melhor.”

* Nome fictício em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

EU vi...
Penitenciária Feminina do Distrito Federal
“‘Moço, você pode me dar uma foto?’ Quando nos preparávamos para ir embora, fomos surpreendidos pela pergunta feita por duas mães. Durante horas, eu e o repórter Breno Fortes perguntamos, perguntamos, perguntamos… Queríamos saber tudo sobre a vida de mãe e filho atrás das grades. Nossa ideia era entender como é compartilhar com alguém aquela experiência que parece tão solitária, apesar do espaço estar sempre tão cheio de gente. Tatiane e Daniele se abriram. Choraram, se emocionaram e relataram o dia a dia na Colmeia. Mas, no fim, queriam guardar um registro dos filhos, que, no próximo mês, devem ir embora. As crianças nunca tinham tirado uma foto e as mães querem ter uma imagem dos filhos por perto. Cada presa tem direito a quatro fotos. Elas já escolheram as suas.” (AR)