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Mesmo preso, Beira-Mar usa empresas para lavar dinheiro

RIO - Preso há dez anos em penitenciárias federais de segurança máxima, o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, teve a mobilidade reduzida pelo cárcere, mas não deixou de articular as ações de sua quadrilha. Numa investigação inédita, o Núcleo de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro, da Polícia Civil, identificou cinco empresas usadas para lavar os lucros obtidos por Beira-Mar com a venda de drogas e armas. Juntas, as firmas com sedes em Foz do Iguaçu (PR), Belo Horizonte (MG) e Campo Grande (MS) movimentaram R$ 62 milhões em 2010. Desde a manhã desta quinta-feira, 200 agentes da Polícia Civil dos estados do Rio, Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais realizam a operação Scriptus para prender pessoas envolvidas no processo de lavagem de dinheiro do tráfico. Os agentes buscam cumprir 20 mandados de prisão e 24 de busca e apreensão contra pessoas físicas e jurídicas envolvidas na lavagem de dinheiro do tráfico.

Dezesseis mandados de prisão já foram cumpridos. Dos presos, dez são os principais responsáveis pela facção e já cumprem pena em presídios federais. Entre eles estão os traficantes Chapolim e Tio Rolinha, além de Beira Mar. Todos os presos responderão por tráfico de drogas, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. "Nessa operação, a Polícia Civil usou o que ela tem de melhor: inteligência, tecnologia e inovação. E trouxe informações conseguidas nos presídios federais e confrontadas com a perícia criminal. Com essa ação, vamos ter uma visão real do impacto no sistema financeiro dessa facção criminosa" disse em nota a chefe de Polícia Civil, delegada Martha Rocha.

Segundo o coordenador do Núcleo de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro, delegado Flávio Porto, os nomes dos outros presos ainda não serão divulgados, pois as investigações ainda estão em andamento.

- Em um ano de investigação, foram relacionadas 112 pessoas físicas e 70 pessoas jurídicas que movimentaram neste período cerca de R$ 62 milhões entre débitos e créditos - disse o delegado, acrescentando que até agora foi descoberto que pelo menos duas empresas eram de fachada, ou seja, foram criadas apenas para lavagem de dinheiro.

As investigações tiveram apoio da Delegacia de Combate às Drogas (DCOD), da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e da Coordenadoria de Inteligência e Informação Policial (Cinpol). O trabalho foi feito a partir de 14 retalhos de papel pautado, com manuscritos do traficante Luiz Fernando da Costa, o "Fernandinho Beira Mar", apreendidos durante a ocupação do Complexo do Alemão. A análise do material levou ao traficante e revelou o esquema usado pela quadrilha para adquirir armas e drogas.

- O objetivo desta operação é desarticular a engenharia financeira que legaliza o tráfico de drogas e armas no Complexo. Durante as apreensões de armas e drogas no Alemão, foram achados, além de armas e drogas, manuscritos e comprovantes de depósitos bancários. Todo o material foi investigado. De posse dos manuscritos, nossos peritos compararam as letras dos recortes com a letra de um requerimento de pedido de alteração de visita feita pelo Fernandinho Beira Mar dentro do presídio e concluíram, após a análise grafológica, que ele era o autor dos bilhetes - explicou.

O material foi encontrado em novembro de 2010, quando a área foi ocupada por forças de segurança. A análise dos textos revelou uma estrutura articulada pelo criminoso para legalizar recursos da venda de maconha, cocaína e armas. A investigação apontou para a existência de uma espécie de "terceiro setor", integrado por pessoas físicas e jurídicas. Os agentes identificaram cinco empresas, sendo duas fictícias, sediadas em Foz do Iguaçu, Mato Grosso do Sul e Belo Horizonte, com a função de dar uma aparência de legalidade ao dinheiro obtido com o tráfico de drogas. Elas teriam movimentado cerca de R$ 62 milhões no último ano. O dinheiro era depositado fracionado em diversas contas bancárias das empresas e seus sócios, por pessoas associadas ao grupo criminoso, exercendo o papel de "agentes depositantes". Uma das firmas, com sede em Foz do Iguaçu, movimentou R$ 10,7 milhões entre maio e julho de 2010. O valor é resultado da soma de dezenas de pequenos depósitos feitos em espécie em agências nos arredores do Alemão.

Com o auxílio do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), da Core e da Coordenadoria de Inteligência da Polícia Civil, foi possível monitorar a origem dos depósitos e o destino final do dinheiro. Constituídas de forma legal, as firmas têm atividades em ramos como o agrícola e o tecnológico. Parte dos valores enviados a duas empresas, em Foz do Iguaçu, na fronteira com Ciudad Del Este, no Paraguai, seria usada para pagar carregamentos de cocaína e maconha enviados ao Rio.

Com base na análise da correspondência, foi possível comprovar que 12 das 30 toneladas de maconha apreendidas há um ano na ocupação do Alemão e da Vila Cruzeiro pertenciam a Beira-Mar. Na época cumprindo pena na penitenciária federal de Campo Grande (MS), o traficante enviava os bilhetes por meio de pessoas cadastradas para visitá-lo na prisão, entre elas advogados. Exames grafotécnicos comprovaram que a letra dos bilhetes é mesmo de Beira-Mar.

As outras duas firmas ligadas ao esquema atuam na área de assessoria financeira (Belo Horizonte) e no comércio (Campo Grande). Em apenas dois dias do mês de junho de 2010, a conta da última empresa recebeu R$ 500 mil. A quantia resultou da soma de diversos depósitos feitos em agências bancárias na Penha, em Bonsucesso, Inhaúma e Ramos. Ao perceber essa movimentação, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), em parceria com a Polícia Civil, possibilitou o bloqueio e sequestro dos saldos das contas bancárias envolvidas no esquema.

O relatório da investigação, assinado pelo delegado Flávio Porto, relaciona 20 pessoas envolvidas no esquema de lavagem de dinheiro. Entre elas, há advogados e empresários. Elas responderão por tráfico de drogas, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

 

Fonte: http://moglobo.globo.com